Privacidade e Proteção de Dados
Guia Prático

Adequação do Escritório à LGPD

Um roteiro passo a passo para implantar a Lei Geral de Proteção de Dados no seu escritório de advocacia

Versão 1 · Atualizado em 2026

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018) não é apenas mais uma obrigação legal — é um novo paradigma de responsabilidade e transparência na relação com clientes, colaboradores e parceiros. Para escritórios de advocacia, a LGPD tem impacto direto: dados de processos, informações de clientes, documentos sensíveis e até mesmo currículos recebidos estão sob sua proteção. Este guia foi preparado para orientar a adequação prática do seu escritório, etapa por etapa, com linguagem acessível e foco no que realmente importa.

O que você vai encontrar neste guia

Entenda a LGPD em 10 minutos
Por que escritórios de advocacia são alvos
Etapa 1: Nomeie um encarregado (DPO)
Etapa 2: Mapeie seus dados
Etapa 3: Defina as bases legais
Etapa 4: Documente tudo (políticas)
Etapa 5: Implemente segurança
Etapa 6: Prepare-se para os titulares
Etapa 7: Plano de resposta a incidentes
Etapa 8: Treine sua equipe
Etapa 9: Monitore e revise
Checklist resumido de adequação
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Entenda a LGPD em 10 minutos

A LGPD estabelece regras sobre como qualquer organização — incluindo escritórios de advocacia — deve coletar, armazenar, usar e compartilhar dados pessoais. "Dado pessoal" é qualquer informação que identifique ou torne identificável uma pessoa: nome, CPF, e-mail, endereço, mas também IP de computador, geolocalização e até características comportamentais.

Dados pessoais sensíveis merecem atenção redobrada: origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, dados de saúde, dados genéticos e biométricos. Escritórios de advocacia lidam com esses dados diariamente — em processos trabalhistas, de família, criminais, de saúde suplementar.

A lei se aplica a qualquer operação de tratamento — coleta, armazenamento, uso, compartilhamento e até eliminação de dados — realizada em meio físico ou digital.

Importante: A LGPD se aplica mesmo que seu escritório seja pequeno. Não há exceção por porte. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) pode aplicar sanções que vão de advertência a multas de até 2% do faturamento, limitadas a R$ 50 milhões por infração.

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Por que escritórios de advocacia precisam de atenção redobrada

Escritórios de advocacia são alvos especialmente sensíveis para a LGPD por várias razões:

Volume de dados sensíveis

Processos judiciais contêm dados de saúde, dados financeiros, informações familiares, dados criminais — todos classificados como sensíveis pela lei.

Dever de sigilo profissional

O sigilo advogado-cliente, previsto no Estatuto da OAB, se soma à LGPD. Violações têm consequências ético-disciplinares e legais.

Múltiplas fontes de dados

Clientes, colaboradores, contrapartes, testemunhas, peritos, estagiários, candidatos a vagas — todos têm dados sob sua guarda.

Compartilhamento com terceiros

Correspondentes jurídicos, peritos, tradutores, contadores, plataformas de processo eletrônico — cada compartilhamento precisa de base legal.

Risco reputacional

Um vazamento de dados processuais pode destruir a confiança construída ao longo de décadas.

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Etapa 1: Nomeie um encarregado de dados (DPO)

O encarregado (ou Data Protection Officer — DPO) é a pessoa física ou jurídica indicada pelo escritório para atuar como canal de comunicação entre o controlador, os titulares de dados e a ANPD.

O que o DPO faz:

  • Aceitar reclamações e comunicações dos titulares de dados
  • Receber comunicações da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD)
  • Orientar os funcionários e contratados sobre as práticas de proteção de dados
  • Conduzir o programa de conformidade à LGPD
  • Elaborar relatórios de impacto à proteção de dados pessoais
  • Manter registro das operações de tratamento de dados

Na prática: Em escritórios menores, o DPO pode ser um dos sócios ou um profissional de compliance. O importante é que tenha autonomia, conhecimento sobre proteção de dados e acesso direto à alta direção. A identidade e as informações de contato do encarregado devem ser divulgadas publicamente no site do escritório.

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Etapa 2: Mapeie todos os dados que circulam no escritório

O mapeamento de dados é o coração da adequação. Você precisa saber exatamente quais dados coleta, onde estão, quem acessa, por quanto tempo ficam e para onde vão.

Perguntas-chave para o mapeamento:

Quais dados pessoais são coletados? (nome, CPF, e-mail, dados de saúde, etc.)
De onde vêm? (formulários, contratos, processos, currículos, site)
Onde são armazenados? (servidores locais, nuvem, pastas físicas, e-mails)
Quem tem acesso? (sócios, advogados, estagiários, TI, terceiros)
Por quanto tempo são mantidos?
Para onde vão? (tribunais, peritos, correspondentes, contabilidade)
Existe consentimento quando necessário?
Como são eliminados ao final do prazo?

Ferramenta prática: Crie uma planilha com colunas: Tipo de dado | Fonte | Local de armazenamento | Finalidade | Base legal | Prazo de retenção | Compartilhamento. Preencha linha por linha para cada fluxo de dados do escritório. Isso será seu inventário de dados pessoais.

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Etapa 3: Defina as bases legais para cada tratamento

Para tratar dados pessoais, você precisa de pelo menos uma base legal. Não existe "uso livre". Veja as bases mais relevantes para escritórios:

Consentimento

Newsletter, marketing jurídico, currículos de candidatos, formulários de contato do site. Deve ser livre, informado e inequívoco — e pode ser revogado a qualquer momento.

Execução de contrato

Contrato de honorários, procuração. Os dados do cliente são necessários para executar o contrato de prestação de serviços advocatícios.

Cumprimento de obrigação legal

Emissão de notas fiscais, guarda de documentos por prazo legal, comunicação a autoridades.

Exercício regular de direitos

Uso de dados em processos judiciais, administrativos ou arbitrais. Esta é uma das bases mais importantes para escritórios!

Legítimo interesse

Envio de comunicados jurídicos relevantes a clientes ativos, proteção do escritório contra fraudes. Requer teste de proporcionalidade.

Atenção especial: Dados sensíveis (saúde, origem étnica, convicção religiosa, dados genéticos) exigem bases legais ainda mais restritas. Em processos judiciais, a base "exercício regular de direitos" geralmente ampara o tratamento — mas documente isso.

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Etapa 4: Documente suas políticas e procedimentos

A LGPD exige que você demonstre compliance — e isso se faz com documentos. Aqui estão os documentos essenciais:

Política de Privacidade e Proteção de Dados

Documento público que explica como o escritório trata dados pessoais. Deve estar disponível no site e ser claro para o titular.

Política de Segurança da Informação

Medidas técnicas e organizacionais para proteger dados contra acessos não autorizados, vazamentos e perdas.

Plano de Resposta a Incidentes

Procedimento documentado sobre o que fazer em caso de vazamento ou incidente de segurança.

Termo de Consentimento (quando aplicável)

Para finalidades que dependem de consentimento, o termo deve ser específico, destacado e com linguagem acessível.

Contratos com cláusulas LGPD

Todos os contratos com terceiros (correspondentes, peritos, fornecedores de software) devem conter obrigações de proteção de dados.

Registro de Operações de Tratamento

Documento interno que registra todas as operações de tratamento, finalidades, bases legais e prazos — essencial para prestar contas à ANPD.

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Etapa 5: Implemente medidas de segurança

A segurança não é só sobre tecnologia — é sobre processos e pessoas. Medidas mínimas para qualquer escritório:

Controle de acesso

Cada pessoa tem login individual. Ninguém compartilha senha. Acesso apenas ao necessário para sua função (princípio do menor privilégio).

Senhas fortes e 2FA

Exija senhas com mínimo de 12 caracteres. Ative autenticação de dois fatores em todos os sistemas críticos (e-mail, nuvem, sistema processual).

Criptografia

Dados em trânsito (HTTPS, VPN) e em repouso (discos criptografados). Use criptografia em e-mails com dados sensíveis.

Backups

Backup diário automático, com cópia em local fisicamente separado. Teste a restauração periodicamente.

Antivírus e firewall

Mantenha atualizados em todos os computadores e servidores. Firewall corporativo com regras de acesso restritivas.

Atualizações

Sistema operacional, softwares e aplicativos sempre atualizados com os patches de segurança mais recentes.

Mesa limpa

Documentos físicos não ficam expostos. Salas de reunião com isolamento acústico. Descarte seguro de papéis com dados (trituradora).

Dispositivos móveis

Celulares e notebooks com senha, criptografia e capacidade de bloqueio/limpeza remota em caso de perda.

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Etapa 6: Prepare-se para atender os direitos dos titulares

A LGPD dá aos titulares de dados direitos que seu escritório precisa estar pronto para atender, em prazos legais.

Confirmação e Acesso

Imediato (simplificado) / 15 dias (completo)

O titular pode perguntar se você tem dados dele e pedir uma cópia.

Correção

10 dias úteis

Dados incompletos, inexatos ou desatualizados devem ser corrigidos.

Eliminação

15 dias

Solicitação de exclusão dos dados (salvo obrigações legais de guarda).

Portabilidade

15 dias

Titular pode pedir seus dados em formato estruturado para levar a outro fornecedor.

Informação sobre compartilhamento

15 dias

Listar com quais terceiros os dados foram compartilhados.

Revogação do consentimento

Imediato

Interromper tratamento baseado em consentimento. Não afeta o passado.

Oposição

15 dias

Titular pode se opor a tratamento não baseado em consentimento.

Revisão de decisões automatizadas

15 dias

Direito a revisão humana de decisões tomadas por algoritmos.

Providência prática: Tenha um canal visível no site (formulário ou e-mail) para receber solicitações de titulares. Defina internamente quem responde e qual o fluxo. Treine a equipe para reconhecer e encaminhar essas solicitações imediatamente.

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Etapa 7: Tenha um plano de resposta a incidentes

Vazamentos acontecem. O que diferencia um escritório preparado é como ele reage. A LGPD exige comunicação à ANPD e aos titulares em prazo razoável.

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Detectar

Como você descobre um incidente? Monitore sistemas, tenha alertas, incentive a equipe a reportar.

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Conter

Isole o sistema afetado, bloqueie acessos, preserve evidências. Não apague logs.

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Avaliar

Qual foi o tipo de dado? Quantos titulares? Qual o risco de dano? A avaliação determina se é obrigatório comunicar a ANPD.

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Comunicar

Se houver risco ou dano relevante: comunicar a ANPD, comunicar os titulares afetados (de forma clara e transparente), acionar o DPO.

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Corrigir

Implementar medidas para evitar recorrência. Documentar todo o processo.

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Aprender

Revisar o plano de resposta, as políticas e os treinamentos à luz do que ocorreu.

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Etapa 8: Treine sua equipe

A melhor segurança técnica falha se alguém clicar em um link de phishing ou compartilhar dados indevidamente. Pessoas são a primeira linha de defesa.

Treinamento inicial para todos os novos integrantes do escritório
Treinamento anual de reciclagem para toda a equipe
Simulações de phishing e engenharia social
Cartilha de bolso com as 10 regras de ouro da proteção de dados
Política de mesa limpa e bloqueio de tela
Orientações sobre uso de dispositivos pessoais (BYOD)
Procedimentos para trabalho remoto seguro (VPN obrigatória)
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Etapa 9: Monitore e revise continuamente

Compliance com LGPD não é um projeto com data de término — é um processo contínuo. Revise periodicamente:

O inventário de dados (novos fluxos? novas ferramentas? novos terceiros?)
As políticas (a lei mudou? a ANPD emitiu novas orientações? o escritório cresceu?)
Os contratos com terceiros (renovação, novos fornecedores)
Os treinamentos (houve incidentes? novos riscos identificados?)
O plano de resposta a incidentes (testes, lições aprendidas)
Relatórios de impacto à proteção de dados (para novos tratamentos de alto risco)

Frequência recomendada: Revisão trimestral de inventário e contratos. Revisão anual completa das políticas. Treinamento anual. Relatórios de impacto sempre que iniciar um novo tratamento de alto risco.

Checklist resumido de adequação

Nomear um encarregado de dados (DPO) e divulgar seu contato
Mapear todos os dados pessoais tratados pelo escritório (inventário)
Identificar a base legal de cada operação de tratamento
Elaborar e publicar a Política de Privacidade
Elaborar a Política de Segurança da Informação
Elaborar o Plano de Resposta a Incidentes
Revisar contratos com terceiros (incluir cláusulas LGPD)
Implementar controles técnicos (senhas, 2FA, criptografia, backup)
Criar canal para solicitações de titulares (e definir fluxo de resposta)
Criar modelo de Relatório de Impacto à Proteção de Dados (RIPD)
Treinar toda a equipe em proteção de dados
Definir rotina de monitoramento e revisão periódica

Precisa de ajuda com a adequação do seu escritório?

A equipe de Direito Digital e Proteção de Dados da Teixeira de Godoi auxilia escritórios e empresas no processo completo de adequação à LGPD.

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